Lacy Barca (gerente de documentação e pesquisa da TVE Brasil)
As primeiras representações de cientistas aparecem nos filmes ao mesmo tempo em que são feitas as primeiras experiências de produção usando a película para contar histórias de ficção. O pioneiro foi cineasta
francês Georges Méliès (1861-1938), que, a partir de 1896, buscou explorar as possibilidades do novo invento e desenvolver os recursos da linguagem cinematográfica com truques, movimentos de câmera e efeitos especiais, além de usar luz artificial. A obra-prima de Méliès é Le Voyage dans la lune (Viagem à Lua), de 1902, onde aparece a primeira representação de cientistas na história do cinema. O filme começa com uma reunião na Academia de Astrônomos da França, onde os cientistas discutem a idéia de uma viagem à Lua. As roupas dos membros da Academia são muito semelhantes às dos magos e feiticeiros da ficção. Entre os pioneiros, destaca-se também Thomas Edison (1847-1931) – inventor do cinetoscópio, protótipo do projetor de películas –, o primeiro a retratar Victor Frankenstein, em um curta-metragem em 1910. Nos anos seguintes, o personagem da escritora inglesa Mary Shelley (1797-1851) seria o cientista mais retratado da
história do cinema, com mais de 80 filmes inspirados na figura que desafia os limites da sociedade, em busca do conhecimento. Muitos outros cientistas foram mostrados nas telas ao longo de mais de um século de cinema, causando maior ou menor impacto no imaginário das pessoas.
O sociólogo inglês Andrew Tudor, da Universidade de York, em seu livro Monsters and madscientists: a cultural history ofthe horror movie, analisou quase mil filmes do gênero terror produzidos entre 1931 e 1984. Em mais de um quarto desses filmes (264), a ciência é mostrada como a principal fonte de ameaça à humanidade.
Tudor dividiu a amostra em quatro períodos:
De 1931 a 1950, os cientistas tentam descobrir os segredos da vida, criando novos seres vivos ou modificando os já existentes. Nos filmes da década de 1930, o cientista era uma mistura de clínico, cirurgião e pesquisador, cercado por uma parafernália de substâncias e equipamentos bizarros. Um exemplo é O médico e o monstro –
Dr. Jekyll and Mr. Hyde, de 1931. As substâncias que o dr. Jekyll prepara durante a noite em seu laboratório interferem na essência da vida, transformando o médico abnegado em um ser capaz de cometer atrocidades.
De 1951 a 1964, as imagens da destruição de Hiroxima e Nagasaki imprimem nos filmes a ameaça da energia atômica. O público já sabe que as situações de pavor exibidas nas telas não são obra apenas de personagens fictícios, mas de homens reais, agentes das conquistas da ciência. Típicos do período são os especialistas em armas nucleares combatidos pelo agente britânico James Bond, ou 007 – personagem criado pelo escritor inglês Ian Fleming (1909-1964). Os filmes do período 1965 a 1976 são os que dão menor importância à ciência. É desse período, porém, um dos mais inquietantes filmes de ficção científica de todos os tempos: 2001: uma odisséia no espaço (1968), de Stanley Kubrick, baseado na obra de Arthur C. Clarke. HAL, o computador programado para pensar, retoma o tema central de ‘Frankenstein’, ou seja, da criatura que se revolta contra seu criador. No final da década de 70, a genética e a clonagem humana, entram em cena.
Os Meninos do Brasil (1978) mostra o perigo do uso do conhecimento científico pelo fanatismo político. Nos anos seguintes, as conquistas da engenharia genética batem todos os recordes de bilheteria com Jurassic Park (Parque dos dinossauros, 1993), que transforma a ciência em aventura, num show de efeitos especiais e computação gráfica. Na última década do século 20, aparecem as primeiras mulheres cientistas no cinema. A doutora Ellie Arroway de Contato (1997) é construída como um exemplo a ser seguido pelas jovens americanas do século XXI.
Os professores Denise Lannes e Leopoldo de Meis, da UFRJ, examinaram, em 1998, desenhos feitos por estudantes de três faixas etárias – 5 a 7 anos, 10 a 13 e 15 a 17 – de oito países: Brasil, Estados Unidos, França, Itália, México, Chile, Índia e Nigéria. A imagem do cientista traçada pelas crianças e adolescentes foi a de um homem vestido de jaleco branco, trabalhando em um laboratório com vidraria. O computador, embora esteja hoje na maior parte dos laboratórios, foi ignorado pelos jovens desenhistas.
Teria o cinema contribuído para a construção dessa imagem?
terça-feira, 24 de março de 2009
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Bruno Mahiques
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